11/04/2015

PASSEIE PELA GRAÇA, EM LISBOA, E CONTACTE COM PINTURAS MURAIS LEMBRANDO A POETISA FLORBELA ESPANCA


Florbela Espanca (Dalila Carmo) em Lisboa.
Imagem do filme "Florbela" (2012) dir. Vicente Alves do Ó.

Quem fez ao sapo o leito carmesim

De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
— Sem nos dar braços para os alcançar?!...

FLORBELA ESPANCA - «?» in Charneca em Flor (1931)


1 – O passeio pela Graça


No Youtube, publicado por: Galeria de Arte Urbana, 26.o1.2015

O “Passeio Literário da Graça” permite conhecer a ligação deste bairro histórico lisboeta (o Bairro Estrela d’Ouro, a Vila Sousa, a Vila Berta) com figuras da história da literatura portuguesa como Natália Correia, Angelina Vidal, Sophia de Mello Breyner e Florbela Espanca.

O projeto “Fachadas Cheias de Graça” foi coordenado pela associação EBANO e, entre abril e junho de 2014, possibilitou a intervenção dos artistas Eime, Leonor Brilha, Lorenzo Bordonaro, Mariana Dias Coutinho, MrDheo, Pariz One, Violant (intervenção promovida pela associação MEDS). O visitante pode descobrir, assim, obras em alguns muros e paredes do património arquitectónico da Graça que lembram e homenageiam figuras ilustres e simultaneamente melhoram o aspecto do bairro da capital.



O mural de Mariana Dias Coutinho e o percurso literário começam na esquina de um muro na Travessa do Monte em que está visível o célebre soneto de Florbela Espanca «Ser Poeta». 


Mural de Mariana Dias Coutinho - pormenor: Florbela Espanca
Seguem-se as imagens de poetisas portuguesas: antecedida de Sophia junto à imagem da sua Fada Oriana e seguida pelo retrato de Natália, esta fumando a sua boquilha, surge Florbela – «com todo o seu coração, o seu amor amor amor, os seus enamorados» (observação da artista). Angelina Vidal fecha este conjunto mural.

"Brainstorm" de Violant, contendo sonetos de Florbela
Imagem de Miguel Monteiro no sítio Arca de Darwin 
Um outro espantoso mural, agora da autoria de Violant (i.e., João Maurício), homenageia a poetisa Florbela Espanca. A intervenção intitulada “Brainstorm”, configurando algo entre árvore do saber poético e planeta azul de sementes da vida - melhor ver do que explicar!, situa-se na rua Natália Correia, mas os versos que alimentam as páginas do livro-árvore do conhecimento são os amados sonetos da autora de Charneca em Flor: «?» [“Quem fez ao sapo o leito carmesim”], o terceiro soneto [«Frémito do meu corpo a procurar-te»] da série de sonetos sob inspiração camoniana «É um não querer que mais bem querer», «Nervos de oiro», «Árvores do Alentejo». Reproduzimos aqui um desses sonetos reconfigurando a simbologia da árvore.
ÁRVORES DO ALENTEJO

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
— Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

"Brainstorm" de Violante (pormenor)

O mistério da criação artística como um livro aberto a interpretações, presente nesta obra, é explanado pelo artista deste modo:
«Este mural é dessa origem de imagens que apelam à imaginação do espectador, solicitando-o a tomar propriedade da imagem, fazendo-a sua, num movimento ininterrupto que vai do criador ao público. Uma ponte invisível ligará, então, o mistério da criação ao da significação. Apenas os murmúrios do espectador podem unir os sugeridos caminhos para que os elementos da imagem remetem. Talvez surjam ecos, feitos homenagens ou reminiscências aos vultos dos escritores que habitaram em paredes próximas, cujo chão das ruas conheceram. Uma evocação que não regula o devaneio, mas serve como seu impulsionador. Apresenta-se sob a forma de sonho do pintor, a qual  apenas demanda: imaginação ao observador, um  livro aberto.» 

2 - Florbela Espanca em Lisboa: 1917-1923, 1927 


Faculdade de Direito de Lisboa, no Campo de Santana
(hoje Embaixada da  Alemanha)
Fotogr. in GUEDES, Rui: 1985.
Logo após ter terminado o liceu, Florbela deseja estudar Letras em Lisboa, vindo de facto a matricular-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, no Campo de Santana, a 9 de outubro de 1917. Apeles, o seu irmão, encontra-se aí a estudar e também ele, embora dotado artisticamente e praticando a pintura, seguirá carreira oposta: a 19 de agosto de 1917 termina o Curso da Escola Naval, vindo mais tarde a ser tratado como Tenente Espanca. Provavelmente as notícias entusiasmantes do irmão sobre a vida cultural e artística da capital a tenham motivado a mudar de ares, preterindo os encantos do Redondo ou de Évora. Por outo lado, entre junho de 1916 e abril de 1917, Florbela correspondera-se em grandes confidências, pessoais e literárias, com Júlia Alves, que é à época a subdiretora do suplemento “Modas e Bordados” do jornal O Século. A sua amiga maior amiga, Milburges Ferreira, a “Buja”, aí também residirá, trabalhando como explicadora particular de português, e com ela Florbela estará sempre em contacto, durante toda a fase em Lisboa que, intermitentemente, se prolonga até novembro de 1923.


Florbela, cerca de 1917 (22 anos)
Neste tempo de guerra mundial, quando Florbela vem viver e estudar para a capital, ela é uma jovem de 22 anos anos, casada desde 1913 com o seu colega da escola primária, Alberto Moutinho, e que embora intua o valor do seu talento poético ainda não o viu devidamente confirmado pela publicação de um livro. A cidade de Lisboa será o enquadramento para a sua estreia literária com o Livro de Mágoas (1919), editado por Raul Proença e financiado pelo pai da poetisa: é na Rua do Salitre, 102 A, que se localizava a Tipografia Maurício que imprimiu a sua coletânea de sonetos. Na Faculdade de Direito, é uma das catorzes mulheres matriculadas num curso maioritariamente  frequentado por homens. Aí conhecerá, entre outros, Américo Durão (1894-1969) que tanta importância virá a ter na sua revelação e identidade poética. Através do seu irmão Apeles conhece a vida artística de Lisboa, visitando exposições e indo  a festas e outros eventos da capital.

Em março de 1918, Florbela faz um aborto involuntário e Henriqueta de Almeida, a sua segunda madrasta, vem para Lisboa tratá-la. Para repousar, no mês seguinte, Florbela  vai com o marido para Quelfes, perto de Olhão, no Algarve, permanecendo o casal hospedado em casa de Doroteia Moutinho. O médico que a trata fala-lhe da gravidade da doença e anunciam-se então os indícios de neurose.
Quando se sente melhor, estando a desentender-se com o marido e não tolerando mais o Algarve, Florbela vem sozinha para Lisboa e matricula-se no 2.º ano da Faculdade de Direito. Durante esse período, vive praticamente separada do marido, que continua no Algarve, dando lições em Olhão.

António Guimarães
Fotogr. in GUEDES, Rui: 1985.
Entretanto, no início de 1920, conhece o alferes da GNR António Guimarães (1895-1981) no casamento de uma familiar do mesmo, na Rua da Madalena, nº 287, 1º Esq.. Com um livro de poesia já editado e escrevendo poemas com certa regularidade, está apaixonada e decide ir viver junto com o seu futuro marido (casarão a 29.02.1921). Todavia, a 12 de julho desse mesmo ano, António Guimarães é mandado apresentar no Destacamento de Artilharia do Porto, situado no Castelo da Foz, para onde vai com Florbela, no dia 15 de Julho. A poetisa deixa a capital.
Quase dois anos depois, em março de 1922, Florbela e o marido voltam para Lisboa, indo viver para uma quinta na Amadora, propriedade de um parente de António Guimarães, onde vivem cerca de quatro meses.

Rua Josefa d’Óbidos, nº 24, 4.º, 4º piso, em Lisboa.
Fotogr. in GUEDES, Rui: 1985.
Em junho de 1922, Florbela muda-se para uma habitação na zona da Graça, na Rua Josefa d’Óbidos, nº 24, 4.º, 4º piso

Florbela publica  a sua segunda obra, o Livro de Soror Saudade (1923), dá explicações de Português a quatro alunas – Aurélia Borges, que lhe consagrará vários estudos, Helena Graça dos Santos, Maria do Céu Amaro dos Santos e Lídia Aguiar do Amaral –, na residência da Lídia, na Rua Braamcamp, n.º 25. Em novembro desse ano sofre um segundo aborto involuntário, encontrando-se num estado de grande debilidade. Para se tratar, Florbela sai de Lisboa e fica hospedada em Gonça, perto de Guimarães, numa quinta de familiares. Esta ida será igualmente a sua separação de António Guimarães (divórcio a 23.06.1925).
Florbela (Dalila Carmo) e o irmão Apeles (Ivo Canelas)
 numa cena do filme "Florbela" (2012) dir. Vicente Alves do Ó.
Em junho de 1927, Florbela Espanca está em Lisboa, quatro dias que antecedem a trágica morte do seu irmão, agora piloto-aviador e que se despenhou durante um voo de treino no hidroavião Hanriot 33 no rio Tejo, a 6 de junho desse ano. É uma mulher de 33 anos, casada agora com o médico Mário Laje (1893-19), traduz romances franceses para a Livraria Civilização do Porto, colabora com poemas no jornal D. Nuno de Vila Viçosa, dirigido por José Emídio Amaro, prepara uma nova coletânea de poemas, Charneca em Flor (1931), e escreve vários contos que agrupará em O Dominó Preto (publicado apena em 1982).

Local de estudo universitário, residências várias, mas também de convívio e tertúlia cultural, cenário de amizades e enamoramento, Lisboa foi também túmulo para o corpo de seu irmão Apeles. Especificamente, no n.º 24 da rua Josefa d’Óbidos, à Graça, da mansarda com janela aberta sobre o céu de Lisboa, criou sonetos como «O meu orgulho», «A vida», «Tarde demais…».

A VIDA

É vão o amor, o ódio, ou o desdém;
Inútil o desejo e o sentimento...
Lançar um grande amor aos pés d'alguém
O mesmo é que lançar flores ao vento!

Todos somos no mundo um “Pedro Sem”,
Uma alegria é feita dum tormento,
Um riso é sempre o eco dum lamento,
Sabe-se lá um beijo donde vem!

A mais nobre ilusão morre... desfaz-se...
Uma saudade morta em nós renasce
Que no mesmo momento é já perdida...

Amar-te a vida inteira eu não podia...
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amor, se é isto a Vida!...

"Brainstorm" de Violant (pormenor)




Fontes:




"Brainstorm" de Violant (pormenor)

05/04/2015

RETRATO DE FLORBELA ESPANCA e de outros Poetas e Escritores, por Graça Martins (2012)

Florbela Espanca retratada por Graça Martins




Conjunto de retratos de escritores realizados por Graça Martins ao longo de várias décadas; a maioria dos retratos encontra-se publicada em obras literárias, como abaixo indicado. 
Isabel de Sá
em O Festim das Serpentes Novas.
Porto: Brasília Ed., 1990.

Eugénio de Andrade
em Eugénio de Andrade: retratos
 Macau: Instituto Cultural, 1990.

Mário de Sá-Carneiro
em Indícios de Oiro.
 Sintra: Colares Ed., 1991.

Isabel de Sá, 3 retratos
na revista O Mono da Tinta.
Galiza, 1996.

Mário Cláudio
em António Cruz - O Pintor e a Cidade.
Porto: Campo das Letras, 2001.

Isabel de Sá
em A Árvore das Virtudes: 35 Anos com a Cidade.
Porto: Edição Árvore.

Os restantes retratos fazem parte de Colecções Particulares e da pintora Graça Martins.

Ver também:



A controversa tradução dos sonetos floberlianos em espanhol



Florbela Espanca
Charneca en Flor: antologia esencial
Edición bilingüe de Luis Alfonso Limpo Píriz.
Merida: Editora Regional de Extremadura, maio 2013.


O autor, cronista de Olivença, em entrevista na Rádio Campanário,  explicou que o seu livro «é uma antologia dos sonetos mais representativos» da obra poética florbeliana e que a seleção foi baseada em «critérios temáticos»; esclarecendo ainda que a antologia é «precedida de uma pequena biografia para dar a conhecer aos leitores espanhóis a vida e o mais representativo da obra de Florbela Espanca».

Editado em 2013, o livro foi agora apresentado em Portugal, no Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vila Viçosa, terra natal da poetisa, no dia 28.03.2015, pelas 15 horas.

Para a controversa tradução dos sonetos de Florbela Espanca em língua espanhola, agora e antes, leia-se o texto de JLGM, registado abaixo.


Ver também:




04/04/2015

FLORBELA ESPANCA, UM ROSTO COM HISTÓRIA – num retrato da pintora Gina Marrinhas

Miguel Torga, Florbela e Frida Kahlo, por Gina Marrinhas.
In “Rostos com história e estórias no rosto”, Aveiro, 2014.
Fonte: Perfil da artista no Facebook.


Gina Marrinhas, artista plástica natural de Macinhata do Vouga, freguesia de Águeda, irá ter uma exposição em maio deste ano, no concelho em que nasceu, intitulada “Rostos com História...”. Esta mostra surge na sequência de outras anteriores, entre as quais “O que os meus olhos não veem” (2012), “Tempo sem horas” (2013), “Aprender com a Alma” (2014), mas resultando fundamentalmente da exposição homónima – “Rostos com história e estórias no rosto”, apresentada na Galeria da antiga Capitania de Aveiro, em 2014.

Nesta mais recente exposição, como explicou ao Diário de Aveiro (29.03.2014), fez acompanhar os seus quadros de poemas porque gosta de contar histórias, poemas glosando rostos anónimos ou figuras com as quais se identifica: os poetas Eugénio de Andrade, Sophia, Torga, Pessoa... mas também Gandhi, Frida Kahlo e Zeca Afonso. São todas «estórias de vida, raízes» que persiste em «descobrir e preservar», reconfigurar e partilhar.


Um desses rostos com história é o de Florbela Espanca (1894-1930), a poetisa nascida na alentejana Vila Viçosa e autora de Charneca em Flor (1931). Portanto, nesta renovada mostra da sua obra pictórica, Gina Marrinhas terá também exposto o retrato que fez de Florbela Espanca. Um retrato que «já está prometido a um amigo que adora os poemas da Florbela», mas que nós podemos admirar aqui, nas reproduções apresentadas.
A pintora segurando a tela com a figura de Florbela.


Fontes:





01/04/2015

FEMININO PLURAL: Florbela Espanca - Maria Adelaide Cunha - Eulália Gonçalves

Retrato de Florbela Espanca na exposição

Na Casa da Beira Alta e em intertextualidade com a exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» de Eulália Gonçalves, o historiador e professor César Santos Silva proferirá a conferência

«Florbela Espanca e Maria Adelaide Cunha – Duas histórias de vida singulares, que tiveram o Porto como pano de fundo»




Domingo, 12 de Abril, às 16:00
Rua Santa Catarina, 147, 1.º

4000-450 Porto




Um dos retratos expostos (Reprod. no Facebook)


A exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» da autoria de Eulália Gonçalves, está patente na Casa da Beira Alta até dia 12 de abril. 
Inaugurada no Dia Internacional da Mulher, com a presença do Ensemble Carl Orff e a declamação dos poemas «A Casa do Mundo» de Luiza Neto Jorge e «Sou de Vidro» de Lídia Jorge, a exposição configura múltiplas rostos e facetas das Mulheres, incluindo a poetisa Florbela Espanca (1894-1930).



Fonte: Eventos criados por Casa Da Beira Alta, no Facebook.

16/03/2015

Tradução dos sonetos de Florbela Espanca em língua croata

Florbela Espanca - Izabrani soneti

Tradução croata por Meri Grubić Videc.
Edição por Biakova d.o.o

No dia 18 de março, em Zagreb, será apresentado o livro de sonetos de Florbela Espanca, na tradução de Meri Grubić Videc.
A sessão será moderada pela crítica literária Ljerka Car Matutinović e contará ainda com a presença do Embaixador de Portugal na Croácia e da Responsável do Centro de Língua Portuguesa/Camões, I.P. de Zagreb.
A tradução e edição deste deste livro foram patrocinadas pelo Camões I.P., no âmbito do Programa de Apoio à Edição 2014 de obras de autores portugueses, e o seu lançamento encontra-se entre as várias atividades culturais desenvolvidas pela Embaixada de Portugal em Zagreb, em articulação com o Centro de Língua Portuguesa / Camões I.P. nesta cidade.

Para saber mais: 






28/02/2015

HENRIQUE LEVY DEDICA UM POEMA A FLORBELA ESPANCA.

Henrique Levy, no perfil do Facebook, 20.03.2013

SETE DE JANEIRO

hoje falei de ti
ao mundo todo circular
da tua vontade de encontro
coroada
nos excessivos lados
na morte... nos lagos...

falei dos teus lenços e colares
das planícies... da tua charneca
a abrir em flor
li-te devagar como quando
nos sentávamos os dois a escutar
os poemas de Anto a sua dor...

hoje sorri como tu querias
que sorrisse sempre
quando princesa afloravas
à minha alma

amei amei cansado
amei em beijos lentos
forte era o teu corpo
que entregava
na sede de te merecer...

falava falava para
o mundo te ouvir
em cada abraço morria
e eras tu que renascias
para voltares a morrer
em mim – e era eu!

as palavras devoravam
os beijos e cantava
cantava louco em febre
e tu desaparecias...

despido o meu hábito de monge
vestido de príncipe alado

sobrevoei ribeiros de perfume
de amor e morri
morria morrendo
desmaiado no poente
da alma alcançada
pela entrega gigante
ao amor vivo

HENRIQUE LEVY



in: Mãos navegadas, livro de poesia dedicado a Florbela. Odivelas : Europress, 1999; reprod. no grupo Florbela Espanca, ser em poesiaFacebook, a 7.01.2015.

21/02/2015

Curto-te bué, tipo perdidamente! 'Tás a ver?


divulgado no Facebook 
por Vicente Alves do Ó,
o autor - argumento e realização -, do 
super-belo filme "Florbela" (Ukbar Filmes, 2012).

17/02/2015

CRESCER E PARTICIPAR EM LIBERDADE… com Florbela Espanca


Depois de um início de ano académico confuso e atribulado - tardio, para alguns professores -, de ter sido contratado em regime de substituição temporária numa escola e agora já ter reiniciado a atividade letiva noutra escola, uma colega gentilmente ofereceu-me a nova Agenda do Professor  2014.2015 concebida pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra (CMS).

Entre as várias atividade e projetos que a CMS desenvolveu para aproximar a Escola e a Comunidade local enquadra-se esta agenda celebrativa dos 40 anos do 25 de abril de 1974, apoiando os professores, envolvendo-os a eles e aos seus alunos na própria elaboração da agenda.

E no mês de fevereiro, encontro esta imagem.


Florbela teria gostado. Essa mulher que gostaria de ter sido mãe, mas não teve filhos; que cantou a liberdade do canto e do ser total, mas sofreu e lutou por uma vida melhor, mais tudo, teria gostado… da realidade de se viver e cantar em Liberdade. Fundo vermelho com o colo da poetisa.

Agenda do professor 2014-2015

Assinalando o 40.º aniversário do 25 de abril de 1974,
segundo o lema «Crescer e participar em Liberdade».
Edição: Câmara Municipal de Sintra: Divisão da Educação;
design: Isabel Bettencourt;
fotografia: José Correia e Pedro Tomé;
coord. de imagem: Luís Cardoso; 
educação: Diana Medina e Marina Barro. 

Mem Martins: CMS, set. 2014.


14/02/2015

AVEC TON CŒUR AIMES-MOI – poema de Florbela dedicada ao namorado, quando tinha 17 anos.



Avec ton cœur aimes-moi
Car tout mon cœur n’aime que toi
Je ne peux te voir sans émoi
Je t’aime bien plus que ma vie.

FLORBELA ESPANCA

Quadra em francês, dedicada ao seu namorado, num postal datado de 28 de outubro de 1912. Florbela tinha 17 anos.



Fonte: NOBRE, Roberto (1946) “Florbela Espanca: Inéditos de sua correspondência de amor”, in O Primeiro de Janeiro, 09.10.46, Porto, p. 3; reprod. em GUEDES, Rui (recolha, leitura e notas) – Poesia: 1903-1917 / Florbela Espanca, de “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol. 1, Lisboa: Dom Quixote, 1985, p. 52; e PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 137.







04/01/2015

FANATISMO

partilhada no grupo Florbela Espanca, ser em poesia,
no Facebook, para ilustrar este poema. 

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...”


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 99.

O QUE TU ÉS

Santa Cecília (1895) por John William Waterhouse


És Aquela que tudo te entristece,
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece,
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e esquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!...


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 98.

O NOSSO LIVRO

Communiquez l’amour - Joyce Meyer

a A.G.

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:

— “Versos só nossos, só de nós os dois!...”

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 97.

SOROR SAUDADE


Imagem do filme "La réligieuse portugaise"
de Eugène Green (França/Portugal) 




A Américo Durão

Irmã, Soror Saudade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe;
Jamais me hão-de chamar outro mais doce:
Com ele bem mais triste me tornaste...

E baixinho, na alma da minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: Irmã Sóror Saudade...



FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 96.

02/01/2015

IMPOSSÍVEL

Florbela Espanca, por Rui Guedes


Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar, d’olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!...
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado, ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

Os males d’Anto toda a gente os sabe!
Os meus... ninguém... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 87.

EM BUSCA DO AMOR

Imagem de um artigo publicado em Le Mauricien 


O meu Destino disse-me a chorar:
— “Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: — “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos p’ra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: — “Ninguém o viu!...”

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 86.