06/04/2015
05/04/2015
RETRATO DE FLORBELA ESPANCA e de outros Poetas e Escritores, por Graça Martins (2012)
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| Florbela Espanca retratada por Graça Martins |
Conjunto de retratos de escritores realizados por Graça Martins ao longo de várias décadas; a maioria dos retratos encontra-se publicada em obras literárias, como abaixo indicado.
Isabel de Sá
em O Festim das Serpentes Novas.
Porto: Brasília Ed., 1990.
Eugénio de Andrade
em Eugénio de Andrade: retratos
Macau: Instituto Cultural, 1990.
Mário de Sá-Carneiro
em Indícios de Oiro.
Sintra: Colares Ed., 1991.
Isabel de Sá, 3 retratos
na revista O Mono da Tinta.
Galiza, 1996.
Mário Cláudio
em António Cruz - O Pintor e a Cidade.
Porto: Campo das Letras, 2001.
Isabel de Sá
em A Árvore das Virtudes: 35 Anos com a Cidade.
Porto: Edição Árvore.
Os restantes retratos fazem parte de Colecções Particulares e da pintora Graça Martins.
Ver também:
A controversa tradução dos sonetos floberlianos em espanhol
Florbela Espanca
Charneca en Flor: antologia esencial
Edición bilingüe de
Luis Alfonso Limpo Píriz.
Merida: Editora
Regional de Extremadura, maio 2013.
O autor, cronista de Olivença, em entrevista na Rádio Campanário, explicou que o seu livro «é uma antologia dos
sonetos mais representativos» da obra poética florbeliana e que a seleção foi
baseada em «critérios temáticos»; esclarecendo ainda que a antologia é «precedida
de uma pequena biografia para dar a conhecer aos leitores espanhóis a vida e o
mais representativo da obra de Florbela Espanca».
Editado em 2013, o livro foi agora apresentado em Portugal, no
Salão Nobre dos Paços do Concelho de Vila Viçosa, terra natal da poetisa, no
dia 28.03.2015, pelas 15 horas.
Para a controversa tradução dos sonetos de Florbela Espanca
em língua espanhola, agora e antes, leia-se o texto de JLGM, registado
abaixo.
Ver também:
- “Charneca en Flor” de Luis Alfonso Pírizapresentado em Vila Viçosa», in Rádio Camapnário [online], 30.03.2015 – Com som e fotos.
- GARCÍA MARTIN, José Luis, «Florbela, las rosas blancas de Ispaham y un alguacil alguacilado», in blogue “Crisis de papel: lecturas de José Luis García Martín”, 6.07.2013.
04/04/2015
FLORBELA ESPANCA, UM ROSTO COM HISTÓRIA – num retrato da pintora Gina Marrinhas
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Miguel Torga, Florbela e Frida Kahlo, por Gina Marrinhas.
In “Rostos com história e estórias no rosto”, Aveiro, 2014.
Fonte: Perfil da artista no Facebook.
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Gina Marrinhas, artista plástica natural de Macinhata do Vouga, freguesia de Águeda, irá ter uma exposição em maio deste ano, no concelho em que nasceu, intitulada “Rostos com História...”. Esta mostra surge na sequência de outras anteriores, entre as quais “O que os meus olhos não veem” (2012), “Tempo sem horas” (2013), “Aprender com a Alma” (2014), mas resultando fundamentalmente da exposição homónima – “Rostos com história e estórias no rosto”, apresentada na Galeria da antiga Capitania de Aveiro, em 2014.
Nesta mais recente exposição, como explicou ao Diário de Aveiro (29.03.2014), fez acompanhar os seus quadros de poemas porque gosta de contar histórias, poemas glosando rostos anónimos ou figuras com as quais se identifica: os poetas Eugénio de Andrade, Sophia, Torga, Pessoa... mas também Gandhi, Frida Kahlo e Zeca Afonso. São todas «estórias de vida, raízes» que persiste em «descobrir e preservar», reconfigurar e partilhar.
Um desses rostos com história é o de Florbela Espanca (1894-1930), a poetisa nascida na alentejana Vila Viçosa e autora de Charneca em Flor (1931). Portanto, nesta renovada mostra da sua obra pictórica, Gina Marrinhas terá também exposto o retrato que fez de Florbela Espanca. Um retrato que «já está prometido a um amigo que adora os poemas da Florbela», mas que nós podemos admirar aqui, nas reproduções apresentadas.
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| A pintora segurando a tela com a figura de Florbela. |
Fontes:
- Gina Marrinhas – Perfil no Facebook.
- Pedaços de mim – Blogue da autora.
- ESTEVES, Adérito, «Exposição de Gina Marrinhas patente em Aveiro», notícia, in Diário de Aveiro [digital], 29.03.2014.
01/04/2015
FEMININO PLURAL: Florbela Espanca - Maria Adelaide Cunha - Eulália Gonçalves
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| Retrato de Florbela Espanca na exposição |
Na Casa da Beira Alta e em intertextualidade com a exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» de Eulália Gonçalves, o historiador e professor César Santos Silva proferirá a conferência
«Florbela Espanca e Maria Adelaide Cunha – Duas histórias de vida singulares, que tiveram o Porto como pano de fundo»
Domingo, 12 de Abril, às 16:00
Rua Santa Catarina, 147, 1.º
4000-450 Porto
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| Um dos retratos expostos (Reprod. no Facebook) |
A exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» da autoria de Eulália Gonçalves, está patente na Casa da Beira Alta até dia 12 de abril.
Inaugurada no Dia Internacional da Mulher, com a presença do Ensemble Carl Orff e a declamação dos poemas «A Casa do Mundo» de Luiza Neto Jorge e «Sou de Vidro» de Lídia Jorge, a exposição configura múltiplas rostos e facetas das Mulheres, incluindo a poetisa Florbela Espanca (1894-1930).
Fonte: Eventos criados por Casa Da Beira Alta, no Facebook.
16/03/2015
Tradução dos sonetos de Florbela Espanca em língua croata
Florbela Espanca - Izabrani soneti.
Tradução croata por Meri Grubić Videc.
Edição por Biakova d.o.o.
No dia 18 de março, em Zagreb, será apresentado o livro de sonetos de Florbela Espanca, na tradução de Meri Grubić Videc.
A sessão será moderada pela crítica literária Ljerka Car Matutinović e contará ainda com a presença do Embaixador de Portugal na Croácia e da Responsável do Centro de Língua Portuguesa/Camões, I.P. de Zagreb.
A tradução e edição deste deste livro foram patrocinadas pelo Camões I.P., no âmbito do Programa de Apoio à Edição 2014 de obras de autores portugueses, e o seu lançamento encontra-se entre as várias atividades culturais desenvolvidas pela Embaixada de Portugal em Zagreb, em articulação com o Centro de Língua Portuguesa / Camões I.P. nesta cidade.
A sessão será moderada pela crítica literária Ljerka Car Matutinović e contará ainda com a presença do Embaixador de Portugal na Croácia e da Responsável do Centro de Língua Portuguesa/Camões, I.P. de Zagreb.
A tradução e edição deste deste livro foram patrocinadas pelo Camões I.P., no âmbito do Programa de Apoio à Edição 2014 de obras de autores portugueses, e o seu lançamento encontra-se entre as várias atividades culturais desenvolvidas pela Embaixada de Portugal em Zagreb, em articulação com o Centro de Língua Portuguesa / Camões I.P. nesta cidade.
Para saber mais:
- «Lançamento do livro "Izabrani soneti" de Florbela Espanca», in página do Centro de Língua Portuguesa / Camões I.P. - Universidade de Zagreb.
- Instituto Camões Zagreb CLPIC, no Facebook. - Divulgação deste evento, 9.03.2014.
28/02/2015
HENRIQUE LEVY DEDICA UM POEMA A FLORBELA ESPANCA.
Henrique Levy, no perfil do Facebook, 20.03.2013
SETE DE JANEIRO
hoje falei de ti
ao mundo todo circular
da tua vontade de encontro
coroada
nos excessivos lados
na morte... nos lagos...
falei dos teus lenços e colares
das planícies... da tua charneca
a abrir em flor
li-te devagar como quando
nos sentávamos os dois a escutar
os poemas de Anto a sua dor...
hoje sorri como tu querias
que sorrisse sempre
quando princesa afloravas
à minha alma
amei amei cansado
amei em beijos lentos
forte era o teu corpo
que entregava
na sede de te merecer...
falava falava para
o mundo te ouvir
em cada abraço morria
e eras tu que renascias
para voltares a morrer
em mim – e era eu!
as palavras devoravam
os beijos e cantava
cantava louco em febre
e tu desaparecias...
despido o meu hábito de monge
vestido de príncipe alado
sobrevoei ribeiros de perfume
de amor e morri
morria morrendo
desmaiado no poente
da alma alcançada
pela entrega gigante
ao amor vivo
HENRIQUE LEVY
in: Mãos navegadas, livro de poesia dedicado a Florbela. Odivelas : Europress, 1999; reprod. no grupo Florbela Espanca, ser em poesia, Facebook, a 7.01.2015.
21/02/2015
Curto-te bué, tipo perdidamente! 'Tás a ver?
divulgado no Facebook
por Vicente Alves do Ó,
o autor - argumento e realização -, do
super-belo filme "Florbela" (Ukbar Filmes, 2012).
17/02/2015
CRESCER E PARTICIPAR EM LIBERDADE… com Florbela Espanca
Depois de um início de ano académico confuso e
atribulado - tardio, para alguns professores -, de ter sido contratado em regime de substituição temporária numa
escola e agora já ter reiniciado a atividade letiva noutra escola, uma colega
gentilmente ofereceu-me a nova Agenda do Professor 2014.2015 concebida pela Divisão de
Educação da Câmara Municipal de Sintra (CMS).
Entre as várias atividade e projetos que a CMS
desenvolveu para aproximar a Escola e a Comunidade local enquadra-se esta agenda celebrativa dos 40 anos do 25 de
abril de 1974, apoiando os professores, envolvendo-os a eles e aos seus alunos
na própria elaboração da agenda.
E no mês de fevereiro, encontro esta imagem.
Florbela teria gostado. Essa mulher que gostaria
de ter sido mãe, mas não teve filhos; que cantou a liberdade do canto e do ser
total, mas sofreu e lutou por uma vida melhor, mais tudo, teria gostado… da
realidade de se viver e cantar em Liberdade. Fundo vermelho com o colo da
poetisa.
Agenda do professor 2014-2015
Assinalando o 40.º aniversário do 25 de abril de 1974,
segundo o
lema «Crescer e participar em Liberdade».
Edição: Câmara
Municipal de Sintra: Divisão da Educação;
design:
Isabel Bettencourt;
fotografia: José Correia e Pedro Tomé;
coord. de imagem: Luís Cardoso;
educação: Diana
Medina e Marina Barro.
Mem Martins: CMS, set. 2014.
14/02/2015
AVEC TON CŒUR AIMES-MOI – poema de Florbela dedicada ao namorado, quando tinha 17 anos.
Avec ton cœur aimes-moi
Car tout mon
cœur n’aime que toi
Je ne peux te
voir sans émoi
Je t’aime bien plus que ma vie.
FLORBELA
ESPANCA
Quadra em francês, dedicada ao seu namorado, num
postal datado de 28 de outubro de 1912. Florbela tinha 17 anos.
Fonte: NOBRE, Roberto (1946) “Florbela Espanca:
Inéditos de sua correspondência de amor”, in O Primeiro de Janeiro, 09.10.46, Porto, p. 3; reprod. em GUEDES, Rui (recolha, leitura e notas) – Poesia:
1903-1917 / Florbela Espanca, de “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol.
1, Lisboa: Dom Quixote, 1985, p. 52; e PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e
notas) – Obra Poética, volume I, de
"Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p.
137.
04/01/2015
FANATISMO
Imagem de Minha Terra, Meu Chão
partilhada no grupo Florbela Espanca, ser em poesia,
no Facebook, para ilustrar este poema.
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...”
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 99.
O QUE TU ÉS
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| Santa Cecília (1895) por John William Waterhouse |
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.
Aquela que o sol claro entenebrece,
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e esquece!
Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!
És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!...
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 98.
O NOSSO LIVRO
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| Communiquez l’amour - Joyce Meyer |
a A.G.
Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.
Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!
Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
— “Versos só nossos, só de nós os dois!...”
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 97.
SOROR SAUDADE
Imagem do filme "La réligieuse portugaise"
de Eugène Green (França/Portugal)
A Américo Durão
Irmã, Soror Saudade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.
Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe;
Jamais me hão-de chamar outro mais doce:
Com ele bem mais triste me tornaste...
E baixinho, na alma da minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,
Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: Irmã Sóror Saudade...
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 96.
02/01/2015
IMPOSSÍVEL
Florbela Espanca, por Rui Guedes
Disseram-me
hoje, assim, ao ver-me triste:
—
“Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre
a cismar, cismar, d’olhos no chão,
Sempre
a pensar na dor que não existe...
O
que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça
por estar contente! Pois então?!...”
Quando
se sofre, o que se diz é vão...
Meu
coração, tudo, calado, ouviste...
Os
meus males ninguém mos adivinha...
A
minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse
ela o que sente! Ai quem me dera!...
Os
males d’Anto toda a gente os sabe!
Os
meus... ninguém... A minha Dor não cabe
Nos
cem milhões de versos que eu fizera!...FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 87.
EM BUSCA DO AMOR
Imagem de um artigo publicado em Le Mauricien
O
meu Destino disse-me a chorar:
—
“Pela estrada da Vida vai andando,
E,
aos que vires passar, interrogando
Acerca
do Amor que hás-de encontrar.”
Fui
pela estrada a rir e a cantar,
As
contas do meu sonho desfilando...
E
noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui
sempre caminhando e perguntando...
Mesmo
a um velho eu perguntei: — “Velhinho,
Viste
o Amor acaso em teu caminho?”
E
o velho estremeceu... olhou... e riu...
Agora
pela estrada, já cansados
Voltam
todos p’ra trás desanimados...
E eu
paro a murmurar: — “Ninguém o viu!...”
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 86.
VELHINHA
As três idades da mulher (pormenor), por Gustav Klimt
Se os que me viram já cheia de
graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam
assim:
— “Já ela é velha! Como o tempo
passa!...”
Não sei rir e cantar por mais
que faça!
Ó minhas mãos talhadas em
marfim,
Deixem esse fio d’oiro que
esvoaça!
Deixem correr a vida até ao
fim!
Tenho vinte e três anos! Sou
velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou
crente...
Já murmuro orações... falo
sozinha...
E o bando cor-de-rosa dos
carinhos
Que tu me fazes, olho-os
indulgente,
Como
se fosse um bando de netinhos...FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 85.
MAIS TRISTE
A grande família - por René Magritte
É triste, diz a gente, a vastidão
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!
É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou... eu... afinal,
A coisa mais magoada das que o são?!...
Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!
E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 84.
SEM REMÉDIO
Pintura de Albert Ritzberger
Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando
atrás de mim, sem me largar!
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 83.
A MINHA TRAGÉDIA
Vestido inspirado numa borboleta negra (2008), por Nathaly Rabelo
Fotografia de Rafael Froner, in Moda em Letras
Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do Sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã, inútil mocidade
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me destes noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...
Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu
sinto sempre a voltejar em mim!...
FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)
Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 82.
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