04/04/2015

FLORBELA ESPANCA, UM ROSTO COM HISTÓRIA – num retrato da pintora Gina Marrinhas

Miguel Torga, Florbela e Frida Kahlo, por Gina Marrinhas.
In “Rostos com história e estórias no rosto”, Aveiro, 2014.
Fonte: Perfil da artista no Facebook.


Gina Marrinhas, artista plástica natural de Macinhata do Vouga, freguesia de Águeda, irá ter uma exposição em maio deste ano, no concelho em que nasceu, intitulada “Rostos com História...”. Esta mostra surge na sequência de outras anteriores, entre as quais “O que os meus olhos não veem” (2012), “Tempo sem horas” (2013), “Aprender com a Alma” (2014), mas resultando fundamentalmente da exposição homónima – “Rostos com história e estórias no rosto”, apresentada na Galeria da antiga Capitania de Aveiro, em 2014.

Nesta mais recente exposição, como explicou ao Diário de Aveiro (29.03.2014), fez acompanhar os seus quadros de poemas porque gosta de contar histórias, poemas glosando rostos anónimos ou figuras com as quais se identifica: os poetas Eugénio de Andrade, Sophia, Torga, Pessoa... mas também Gandhi, Frida Kahlo e Zeca Afonso. São todas «estórias de vida, raízes» que persiste em «descobrir e preservar», reconfigurar e partilhar.


Um desses rostos com história é o de Florbela Espanca (1894-1930), a poetisa nascida na alentejana Vila Viçosa e autora de Charneca em Flor (1931). Portanto, nesta renovada mostra da sua obra pictórica, Gina Marrinhas terá também exposto o retrato que fez de Florbela Espanca. Um retrato que «já está prometido a um amigo que adora os poemas da Florbela», mas que nós podemos admirar aqui, nas reproduções apresentadas.
A pintora segurando a tela com a figura de Florbela.


Fontes:





01/04/2015

FEMININO PLURAL: Florbela Espanca - Maria Adelaide Cunha - Eulália Gonçalves

Retrato de Florbela Espanca na exposição

Na Casa da Beira Alta e em intertextualidade com a exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» de Eulália Gonçalves, o historiador e professor César Santos Silva proferirá a conferência

«Florbela Espanca e Maria Adelaide Cunha – Duas histórias de vida singulares, que tiveram o Porto como pano de fundo»




Domingo, 12 de Abril, às 16:00
Rua Santa Catarina, 147, 1.º

4000-450 Porto




Um dos retratos expostos (Reprod. no Facebook)


A exposição de pintura «Para um imenso, um quase-nada» da autoria de Eulália Gonçalves, está patente na Casa da Beira Alta até dia 12 de abril. 
Inaugurada no Dia Internacional da Mulher, com a presença do Ensemble Carl Orff e a declamação dos poemas «A Casa do Mundo» de Luiza Neto Jorge e «Sou de Vidro» de Lídia Jorge, a exposição configura múltiplas rostos e facetas das Mulheres, incluindo a poetisa Florbela Espanca (1894-1930).



Fonte: Eventos criados por Casa Da Beira Alta, no Facebook.

16/03/2015

Tradução dos sonetos de Florbela Espanca em língua croata

Florbela Espanca - Izabrani soneti

Tradução croata por Meri Grubić Videc.
Edição por Biakova d.o.o

No dia 18 de março, em Zagreb, será apresentado o livro de sonetos de Florbela Espanca, na tradução de Meri Grubić Videc.
A sessão será moderada pela crítica literária Ljerka Car Matutinović e contará ainda com a presença do Embaixador de Portugal na Croácia e da Responsável do Centro de Língua Portuguesa/Camões, I.P. de Zagreb.
A tradução e edição deste deste livro foram patrocinadas pelo Camões I.P., no âmbito do Programa de Apoio à Edição 2014 de obras de autores portugueses, e o seu lançamento encontra-se entre as várias atividades culturais desenvolvidas pela Embaixada de Portugal em Zagreb, em articulação com o Centro de Língua Portuguesa / Camões I.P. nesta cidade.

Para saber mais: 






28/02/2015

HENRIQUE LEVY DEDICA UM POEMA A FLORBELA ESPANCA.

Henrique Levy, no perfil do Facebook, 20.03.2013

SETE DE JANEIRO

hoje falei de ti
ao mundo todo circular
da tua vontade de encontro
coroada
nos excessivos lados
na morte... nos lagos...

falei dos teus lenços e colares
das planícies... da tua charneca
a abrir em flor
li-te devagar como quando
nos sentávamos os dois a escutar
os poemas de Anto a sua dor...

hoje sorri como tu querias
que sorrisse sempre
quando princesa afloravas
à minha alma

amei amei cansado
amei em beijos lentos
forte era o teu corpo
que entregava
na sede de te merecer...

falava falava para
o mundo te ouvir
em cada abraço morria
e eras tu que renascias
para voltares a morrer
em mim – e era eu!

as palavras devoravam
os beijos e cantava
cantava louco em febre
e tu desaparecias...

despido o meu hábito de monge
vestido de príncipe alado

sobrevoei ribeiros de perfume
de amor e morri
morria morrendo
desmaiado no poente
da alma alcançada
pela entrega gigante
ao amor vivo

HENRIQUE LEVY



in: Mãos navegadas, livro de poesia dedicado a Florbela. Odivelas : Europress, 1999; reprod. no grupo Florbela Espanca, ser em poesiaFacebook, a 7.01.2015.

21/02/2015

Curto-te bué, tipo perdidamente! 'Tás a ver?


divulgado no Facebook 
por Vicente Alves do Ó,
o autor - argumento e realização -, do 
super-belo filme "Florbela" (Ukbar Filmes, 2012).

17/02/2015

CRESCER E PARTICIPAR EM LIBERDADE… com Florbela Espanca


Depois de um início de ano académico confuso e atribulado - tardio, para alguns professores -, de ter sido contratado em regime de substituição temporária numa escola e agora já ter reiniciado a atividade letiva noutra escola, uma colega gentilmente ofereceu-me a nova Agenda do Professor  2014.2015 concebida pela Divisão de Educação da Câmara Municipal de Sintra (CMS).

Entre as várias atividade e projetos que a CMS desenvolveu para aproximar a Escola e a Comunidade local enquadra-se esta agenda celebrativa dos 40 anos do 25 de abril de 1974, apoiando os professores, envolvendo-os a eles e aos seus alunos na própria elaboração da agenda.

E no mês de fevereiro, encontro esta imagem.


Florbela teria gostado. Essa mulher que gostaria de ter sido mãe, mas não teve filhos; que cantou a liberdade do canto e do ser total, mas sofreu e lutou por uma vida melhor, mais tudo, teria gostado… da realidade de se viver e cantar em Liberdade. Fundo vermelho com o colo da poetisa.

Agenda do professor 2014-2015

Assinalando o 40.º aniversário do 25 de abril de 1974,
segundo o lema «Crescer e participar em Liberdade».
Edição: Câmara Municipal de Sintra: Divisão da Educação;
design: Isabel Bettencourt;
fotografia: José Correia e Pedro Tomé;
coord. de imagem: Luís Cardoso; 
educação: Diana Medina e Marina Barro. 

Mem Martins: CMS, set. 2014.


14/02/2015

AVEC TON CŒUR AIMES-MOI – poema de Florbela dedicada ao namorado, quando tinha 17 anos.



Avec ton cœur aimes-moi
Car tout mon cœur n’aime que toi
Je ne peux te voir sans émoi
Je t’aime bien plus que ma vie.

FLORBELA ESPANCA

Quadra em francês, dedicada ao seu namorado, num postal datado de 28 de outubro de 1912. Florbela tinha 17 anos.



Fonte: NOBRE, Roberto (1946) “Florbela Espanca: Inéditos de sua correspondência de amor”, in O Primeiro de Janeiro, 09.10.46, Porto, p. 3; reprod. em GUEDES, Rui (recolha, leitura e notas) – Poesia: 1903-1917 / Florbela Espanca, de “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol. 1, Lisboa: Dom Quixote, 1985, p. 52; e PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 137.







04/01/2015

FANATISMO

partilhada no grupo Florbela Espanca, ser em poesia,
no Facebook, para ilustrar este poema. 

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa...”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
“Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!...”


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 99.

O QUE TU ÉS

Santa Cecília (1895) por John William Waterhouse


És Aquela que tudo te entristece,
Irrita e amargura, tudo humilha;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece,
A que nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina e esquece!

Mar-Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas!

És ano que não teve Primavera...
Ah! Não seres como as outras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera!...


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 98.

O NOSSO LIVRO

Communiquez l’amour - Joyce Meyer

a A.G.

Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!

Ah, meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:

— “Versos só nossos, só de nós os dois!...”

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 97.

SOROR SAUDADE


Imagem do filme "La réligieuse portugaise"
de Eugène Green (França/Portugal) 




A Américo Durão

Irmã, Soror Saudade me chamaste...
E na minh'alma o nome iluminou-se
Como um vitral ao sol, como se fosse
A luz do próprio sonho que sonhaste.

Numa tarde de Outono o murmuraste;
Toda a mágoa do Outono ele me trouxe;
Jamais me hão-de chamar outro mais doce:
Com ele bem mais triste me tornaste...

E baixinho, na alma da minh'alma,
Como bênção de sol que afaga e acalma,
Nas horas más de febre e de ansiedade,

Como se fossem pétalas caindo,
Digo as palavras desse nome lindo
Que tu me deste: Irmã Sóror Saudade...



FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 96.

02/01/2015

IMPOSSÍVEL

Florbela Espanca, por Rui Guedes


Disseram-me hoje, assim, ao ver-me triste:
Parece Sexta-Feira de Paixão.
Sempre a cismar, cismar, d’olhos no chão,
Sempre a pensar na dor que não existe...

O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
Faça por estar contente! Pois então?!...
Quando se sofre, o que se diz é vão...
Meu coração, tudo, calado, ouviste...

Os meus males ninguém mos adivinha...
A minha Dor não fala, anda sozinha...
Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!...

Os males d’Anto toda a gente os sabe!
Os meus... ninguém... A minha Dor não cabe
Nos cem milhões de versos que eu fizera!...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 87.

EM BUSCA DO AMOR

Imagem de um artigo publicado em Le Mauricien 


O meu Destino disse-me a chorar:
— “Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfilando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei: — “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados
Voltam todos p’ra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: — “Ninguém o viu!...”

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 86.

VELHINHA

As três idades da mulher (pormenor), por Gustav Klimt

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
— “Já ela é velha! Como o tempo passa!...”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 85.

MAIS TRISTE

A grande família - por René Magritte

É triste, diz a gente, a vastidão
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!

É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não vêem que eu sou... eu... afinal,
A coisa mais magoada das que o são?!...

Poentes de agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente de amargura!

E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!
E a noite sou eu própria! A Noite escura!!

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 84.

SEM REMÉDIO

Pintura de Albert Ritzberger

Aqueles que me têm muito amor
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dor
À minha porta e, nesse dia, entrou.

E é desde então que eu sinto este pavor,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

Sinto os passos da Dor, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!

E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atrás de mim, sem me largar!

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 83.

A MINHA TRAGÉDIA


Vestido inspirado numa borboleta negra (2008), por Nathaly Rabelo
Fotografia de Rafael Froner, in Moda em Letras



Tenho ódio à luz e raiva à claridade
Do Sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh’alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!

Ó minha vã, inútil mocidade
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me destes noutra vida,
Trago em meus lábios roxos, a saudade!...

Eu não gosto do Sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segredo
De não amar ninguém, de ser assim!

Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta estranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 82.

TÉDIO

Jovem de Max Nonnenbruch
numa recriação de Peinture & Photographie


Passo pálida e triste. Ouço dizer:
“Que branca que ela é! Parece morta!”
E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
Não tenho um gesto, ou um olhar sequer...

Que diga o mundo e a gente o que quiser!
– O que é que isso me faz?... O que me importa?...
O frio que trago dentro gela e corta
Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza
É menos dor intensa que frieza,
É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente...
O mesmo lago plácido, dormente...
E os dias, sempre os mesmos, a correr...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 81.

AO VENTO


O vento passa a rir, torna a passar,
Em gargalhadas ásp’ras de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há-de rir, se há-de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim, sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amar,
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!... Ó vento, chora!

Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um calvário,
e a gente andar a rir p’la vida fora!!...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 80.

01/01/2015

PARA QUÊ?!


Tudo é vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...

Beijos de amor! P’ra quê?!... Tristes vaidades
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos de amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)


Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 79.