18/03/2014

O espólio de Florbela Espanca: quatro coleções

21 mar. - 17 abr. 2014


O espólio de Florbela Espanca: quatro coleções



À memória de Rui Guedes



(1) O Espólio documental Florbela Espanca na BPE

          No âmbito das atividades de celebração do Dia Mundial da Poesia, a Biblioteca Pública de Évora (BPE) divulga o espólio da poetisa Florbela Espanca, quer na sala de exposições quer no “site” da biblioteca, a partir de 21 de março.
        
          Esta coleção de documentos compreende manuscritos autógrafos (um caderno com dezoito sonetos, entre os quais «Ser Poeta»), iconografia e material concernente ao falecimento da poetisa aos 36 anos de idade. Destaca-se o conjunto de cartas de Florbela a Guido Battelli, carteio trocado nos últimos seis meses da sua vida, e que permitiu a Rui Guedes, na edição das “Obras Completas de Florbela Espanca”, recuperar os textos originais sem a montagem forjada pelo primeiro editor e admirador, o professor Guido Battelli.

          A exposição propriamente dita, na Biblioteca Pública de Évora, apresenta, de 21 de março até ao dia 17 de abril, uma mostra bibliográfica com parte desta documentação, acrescida de poemas publicados avulsamente em jornais e revistas e ainda os romances franceses cuja tradução foi da autoria da poetisa. Esta iniciativa de divulgar documentos de valor editorial, mas também simbólico e afetivo, da escritora alentejana contribuirá para um avanço significativo dos estudos florbelianos e, obviamente, será mais um motivo de satisfação para os leitores e verdadeiros fãs de Florbela. Aguarda-se a sua divulgação online e espera-se – espero eu, que provavelmente lá não poderei ir! – que os visitantes da mostra em Évora partilhem as suas impressões ou descobertas, nos vários locais de convívio com a vida e a obra de Florbela Espanca, como as redes sociais e a blogosfera.


          Todavia, esta coleção agora em mostra e que está ao cuidado da Biblioteca Pública de Évora constitui tão-somente um dos quatro acervos atualmente conhecidos da Poetisa. Alguns deles integram não apenas documentos mas também objetos de Florbela. Vejamos, de modo sintético, esses espólios.

(2) O Espólio do "Grupo Amigos de Vila Viçosa"

          O espólio de Florbela Espanca, propriedade do “Grupo Amigos de Vila Viçosa”, foi doado ao grupo pelo médico e último marido de Florbela, Mário Lage, e veio diretamente da casa do casal em Matosinhos. A doação do acervo ocorreu aquando da homenagem à poetisa em 1964, estando esta cerimónia igualmente documentada nesta coleção.
          Este espólio abrange cerca de cinquenta e cinco documentos e objetos pessoais e está a ser tratado no âmbito de um projeto da Universidade Évora, divulgado online sob o título  Florbela Espanca: o Espólio de um Mito, onde surge designado como Espóliode Vila Viçosa. O inventário foi elaborado de acordo com as normas e categorias estabelecidas pelo Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) e está acessível online, bem como algumas das imagens dos documentos digitalizados.

(3) A “Coleção Florbela Espanca” na BNP

          Outra Coleção Florbela Espanca, bastante conhecida e consultada, encontra-se depositada na Biblioteca Nacional de Portugal, integrada no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea (Esp. N10).
          Rui Guedes, o editor das “Obras completas de Florbela Espanca” em oitos volumes – incluindo a Fotobiografia e o completíssimo Acerca de Florbela: biografia, bibliografia, apêndices, discografia e índice remissivo geral, livrinho que todos usam mas poucos referem – descobriu este espólio. Florbela, antes de deixar António Guimarães para ir viver com Mário Lage, oferecera à sua cunhada todas as suas coisas queridas e estas permaneceram, guardadas ou esquecidas, num sótão cerca de seis décadas; em 25.10.1982, já em posse do neto dessa senhora, na sua casa em S. João do Estoril, são adquiridas por Rui Guedes.
          Este espólio, contendo cerca de 39 documentos, está devidamente inventariado e digitalizado, disponível ao público em microfilme e online, e espelha a produção poética de Florbela entre 1915 e 1922, incluindo os autógrafos de primeiras e segundas versões dos seus poemas, algumas cartas e documentos biográficos. Veja aqui o resumo.

(4) O “Espólio Florbela Espanca” na BMFE

          Finalmente, outro precioso “Espólio Florbela Espanca” encontra-se à guarda da BibliotecaMunicipal Florbela Espanca de Matosinhos, terra em que a poetisa viveu com Mário Lage e onde viria a falecer. Os documentos deste acervo integram os Espólios de Escritores do arquivo da biblioteca e já se encontram inventariados: a sua catalogação está acessível no catálogo online da biblioteca [pesquisar com palavra-chave “Florbela Espanca” e ordenar por “data de publicação”]. Compreende iconografia, manuscritos da autora, epistolografia e outros documentos pessoais ou de terceiros. Este espólio foi adquirido pela Câmara Municipal de Matosinhos, em 2006, à filha da escritora e biógrafa da poetisa, Maria Alexandrina, que já o recebera do segundo marido de Florbela, António Guimarães. Não admira, pois, que do conjunto de cartas desta coleção tenha sido composto o volume de Maria Lúcia Dal Farra – Perdidamente: correspondência amorosa 1920-1925 (2009).

***

          Notícias, artigos, teses académicas sobre a obra e a vida de Florbela Espanca continuam a ser redigidos, divulgados e lidos numa dinâmica espantosa e a uma escala global; encontros, colóquios e exposições – como esta agora na Biblioteca Pública de Évora, vão ocorrendo, com interesse renovado, despertando o amor crescente pelo pensar e sentir de uma mulher da primeira metade do século XX português, que é atualmente um fenómeno nas redes sociais – o seu nome, o seu rosto e os seus poemas são mais conhecidos e celebrados que o de muitos escritores canonizados pela crítica ou a Academia.
          Urge um inventário sistemático e rigoroso da bibliografia ativa (textos em volume e avulsos, éditos e manuscritos), articulando os quatro espólios atualmente conhecidos da Poetisa. Igualmente, sente-se a carência de um levantamento, o mais exaustivo possível, da fortuna crítica sobre a obra da poetisa, de modo a permitir avaliar o que já foi dito e assim abrir caminho a novas ou mais ousadas interpretações dos seus textos, líricos, narrativos e epistolares; dos sonetos mas também das quadras ao gosto popular.

JCCanoa


 Para saber mais

08/03/2014

CASTELÃ DA TRISTEZA, soneto de Florbela Espanca

Livro de Horas para o uso de Amiens. Picardia, séc. XV

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?...
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguém vem...

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada, p’las ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonhos afagam tuas mãos reais?...

Florbela Espanca




Referêencia:

In: ESPANCA, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 59.

O «EU» de Florbela

Imagem in: Hoje na Historia - JBlog - Jornal do Brasil

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo p’ra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca


Referêencia:

In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 58.

"Vaidade" de Florbela ou «a Poetisa eleita" pelos leitores

Florbela, em Évora - 1916.

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... 

                                          E não sou nada!...

Florbela Espanca





Referêencia:
In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 57.

14/02/2014

As quadras d’Ele [I], para que encontre a frescura do enamoramento

O dia do casamento de Bela com Alberto Moutinho
8 de dezembro de 1918
É também o aniversário da poetisa: tem 24 anos.


Onde estás ó meu amor,
Que te não vejo apar’cer?
Para que quero eu os olhos
Se não servem pra te ver?

Que m’importa a luz suave
Dos olhos que o mundo tem?
Não posso ver os teus olhos
Não quero ver os de ninguém.

Florbela Espanca
(primeiros versos)

Ler aqui o conjunto destas quadras:

30/01/2014

Coleção 1.as Edições Fac-similadas II – “Livro de Soror Saudade” de Florbela Espanca



O Livro de Soror Saudade de Florbela Espanca foi editado na coleção “1.as Edições Fac-similadas", série II, do jornal Público que comemora os 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra e a classificação da Universidade a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Esta segunda coletânea de sonetos da poetisa é reproduzida numa edição fac-similada, i.e., tal e qual como foi originalmente publicada: o leitor pode folhear com as suas mãos um volume com a mesma dimensão, capa, fontes de letra e paginação, como se o verdadeiro livro de poemas de Florbela se tratasse.

Nesta coleção que reúne as primeiras edições das obras mais emblemáticas da cultura portuguesa, o livro de Florbela Espanca é apresentado por um dos mais reconhecidos estudiosos da sua obra, José Carlos Seabra Pereira.

Apareceu à venda nos locais habituais de distribuição de publicações periódicas, juntamente com o jornal Público, esta terça-feira, 28.01.2014.



“O Livro de Sóror Saudade é um livro de poesia de Florbela Espanca, onde a autora, ao longo de 36 sonetos, expõe o sentimento vivo do amor e da paixão, da entrega e do despertar para a vida. A obra foi publicada pela primeira vez em 1923 e acusa a presença do romantismo de fim de século, acompanhado por um crescendo na abordagem erótica, destacando-se nele os sonetos «Maria das Quimeras» (de tom biográfico), «Hora que passa» e o poema que lhe empresta o título, «Sóror Saudade».” – Descrição do livro na Loja do Público.



Para saber mais:

  • «Florbela Espanca no primeiro volume da série II das 1.as Edições Fac-similadas», Público, Lisboa, 24.01.2014, p. 50.
  • PEREIRA, José Carlos Seabra – «Do desejo de ser ao ser de desejo» [análise do livro], Público, Lisboa, 26.01.2014, p. 55.
  • Loja Público: Livros: Colecção 1as Edições Fac-Similadas.

Texto divulgado neste blogue no dia 2-2-2014.

26/01/2014

A Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão promove encontro sobre Florbela Espanca





Vicente Alves Do Ó, o realizador do filme "Florbela" [2012] e da série televisiva de três episódios sobre a vida da poetisa alentejana, contou: «Dia 7 volto a Famalicão com o Albano Jerónimo [o ator interpretou a figura de Mário Laje, marido da escritora] para falar sobre o "Florbela" - Facebook, 26.01.2014.

21/01/2014

Luisa Notarangelo celebra Florbela Espanca em “Terra de Portugal”

Luisa Notarangelo
Imagem do perfil, no Facebook


Luisa Notarangelo, a residir em Itália, é vocalista de LUSITANA SAUDADE ENSEMBLE e canta um reportório musical de “world music” que inclui letras com textos de poetas portugueses, desde os mais consagrados e amados – como Fernando Pessoa e Florbela Espanca, até a populares (de tom alentejano) e de intervenção (Zeca Afonso).






          No CD agora lançado TERRA DE PORTUGAL [2014] – ideia, voz e produção executiva de Luisa Notarangelo – Florbela Espanca é verdadeiramente homenageada: são três as letras adaptadas de poemas da autora de Charneca em flor [1931]:
          «Fado Menor» [«Poetas»];
          «Fado Florbela» [soneto «Anoitecer»] e
           «Fado para Amália» [«Meu fado, meu doce amigo»].
Transcrevemos, à frente, os textos florbelianos. Um desses poemas interpretados por Luisa Notarangelo está disponível no Youtbe – Oiça este fado, e aproveite para expressar um "gosto" [like]:



FADO FLORBELA [clique aqui]
Letra: Florbela Espanca/Luisa Notarangelo
Música e arranjos: José Barros e José Elmiro Nunes
Vídeo no Youtube – fotografia de Patrizia Secundo.



ANOITECER*

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos d'amor p’ra toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora…

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive;
Saudades de saudades que não tenho... 

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
Florbela



* Soneto integrado no volume Livro de Soror Saudade [1923). -in: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 112.



«Fado Menor» de Luisa Notarangelo


POETAS*

Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,

Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito

Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras

Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
                                  Florbela

* Poema publicado no Notícias de Évora, 23.07.1916. - in: ESPANCA, Florbela – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, 27.

«Fado para Amália» de Luisa Notarangelo


MEU FADO, MEU DOCE AMIGO

Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!

Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d'amor!

Cantando p'r uma voz pura
Eu quero ouvir-te também
P'r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!

Pela calada da noite,
Quando o luar é dolente,
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...

                                   Florbela



* In: ESPANCA, Florbela – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 58.



Para saber mais:


16/01/2014

«PRINCE CHARMANT», soneto de Florbela Espanca

Ilustr. de Infante do Carmo para um conto d'O livro das mil e uma noites
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.



A Raul Proença

No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas!

Ó noites da minh'alma tenebrosas!
Bocas sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Em toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
— Nunca se encontra Aquele que se espera!...

Florbela Espanca



Referêencia:
Título original, nos manuscritos: «Nunca», escrito em Vila Viçosa, e integrado no volume Livro de Soror Saudade (1923).


In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 111.

10/01/2014

«És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!», soneto de Florbela



És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim…
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra? — Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

Florbela Espanca




Referência:
Soneto "IV" da parte "He hum não querer mais que bem querer" de Charneca em flor (1931).

In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 192.

08/01/2014

A terra de Florbela



POBRE DE CRISTO


A. J. Emídio Amaro


Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar,
Onde tenho o meu pão e a minha casa.

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu,
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada!

Truz... truz... truz... — Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite,
Terra, quero dormir, dá-me pousada!...

Florbela Espanca




Soneto inicialmente intitulado «Minha terra» e publicado no periódico D. Nuno, nº 125, 19.05.1929, Vila Viçosa, p. 2. - Integrado no volume Charneca em flor (1931).

27/12/2013

Intertextualidades - Florbela por Al Berto

[Quinta de Santa Catarina (fragmentos de um diário): 1979/80]






Paisagem alentejana - Amieira (Monsaraz)
Fotografia de Gonçalo Godinho, em Olhares.sapo.pt



amo as águas no instante em que não são do rio
nem pertencem ainda ao mar
árduas planícies rosto incendiado pesando-me nos ombros
hirto... tatuado no entardecer de magoada cocaína

leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
noturna sombra de corpo embriagado
fogos por descuido acesos no húmido leito de juncos
altíssima margem...inacessível noite de Florbela

e o soneto dizia:     Sou aquela que passa e ninguém vê
                                  Sou a que chamam triste sem o ser 
                                  Sou a que chora sem saber porquê

apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
dos reduzidos seres marinhos esmagados
na pressa do mar… possuo este resíduo de vida estelar
gravada na pele está a cabeça de medusa loura… dói
nas comissuras penumbrosas das falésias que me evocam
os ternos lábios das grandes bocas fluviais

sinto o rigor das plantas eretas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias
junto à foz de meu insegura desaguar... continuo sentado
escrevo a desordem urgente das horas... medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir

espero o cortante sal-gema das ilhas... a ilusão
de me prolongar na secreta noite dos peixes
adormeço
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar

Al Berto



«2. / 1979» – texto de “Quinta de Santa Catarina (fragmentos de um diário): 1979/80”, in “Livro sexto: 1978/83: Salsugem”, de O Medo: trabalho poético 1974-1990. Lisboa: Contexto /Círculo de Leitores, 1991, p. 270.

[Post adaptado do divulgado por Custódia Pereira em Florbela Espanca, ser em poesia, grupo do Facebook.]

23/12/2013

Desejos natalícios, da poetisa Florbela Espanca




Na fotografia familiar: [Flor]Bela; o pai, João Maria Espanca; Mariana do Carmo Toscano, a primeira madrasta de Bela; e o irmão, Apeles Espanca.


Poema escrito num postal a Júlia Alves, datado de Évora – 24.12.1916, em resposta ao envio de um ramo de violetas pela sua amiga e correspondente, em Lisboa, do suplemento “Modas e Bordados” do jornal O Século.


In: GUEDES, Rui (recolha, leitura e notas) – Poesia: 1903-1917 / Florbela Espanca, de “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol. 1, Lisboa: Dom Quixote, 1985, p. 269.

19/12/2013

ESTE LIVRO...


Túmulo da poetisa
Fotogr. de Gabi, in Flickr
















Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...

FLORBELA ESPANCA


Livro de mágoas (1919) [1.º soneto]



Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 56.

16/12/2013

Autobiografia – páginas do Diário de Bela

 «[...] o meu ser misterioso, intangível, secreto»


[1]
          «Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
          Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
          Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir. Como compreender a amargura desta amargura? Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas? Deus malicioso e frívolo que tão lindos mantos teces sobre os ombros das mulheres que vivem? Para mim és um fantoche, ora amável ora rabugento, de que eu conheço todos os fios, de quem eu sei de cor todas as contorções. «Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases.
          Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas, não viso nenhum objetivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me

Página de abertura do Diário, datada de 11.01.1930, pp. 233-234.

 [2]
          «Viver não é parar: é continuamente renascer. As cinzas não aquecem; as águas estagnadas cheiram mal. Bela! Bela! não vale recordar o passado! O que tu foste, só tu o sabes: uma corajosa rapariga, sempre sincera para consigo mesma.
          E consola-te, que esse pouco já é alguma coisa. Lembra-te que detestas os truques e os prestidigitadores. Não há na tua vida um só ato covarde, pois não? Então que mais queres, num mundo em que toda a gente o é... mais ou menos? Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, reta sem princípios e sempre viva, exaltantemente viva, miraculosamente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da tua bárbara charneca!»
Página do Diário, datada de 12.01.1930, p. 234.

 [3]
          «Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme, e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver… para viver?» – Diário do último ano, p. 241

Página do Diário, datada de 20.04.1930, p. 241.



_____ Referência: _____
Cartas e diário /Florbela Espanca, org., introd. e notas de Rui Guedes, Venda Nova, Bertrand, 1995 – Col. “Autores de língua portuguesa”, pp. 233, 234, 241.

15/12/2013

«Vozes do mar» de Florbela é letra de fado, na Semana Florbela Espanca

Publicado por Vagner Cardoso, no Youtube, 10.12.2013
«Vozes do mar», poema de Florbela adaptado como letra de fado

na Semana Florbela Espanca, na Casa de Portugal em São Paulo

Exclusivamente na noite de 10 dez. [terça-feira], houve a participação especial
do violonista Sérgio Borges e da fadista Ciça Marinho, cantando
um poema de Florbela Espanca transformado em fado.



VOZES DO MAR


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d’epopeias? Tens anseios
D’amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

FLORBELA ESPANCA


[Soneto escrito a 17.06.1916]




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume II, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2010, p. 75.

14/12/2013

«Riso amargo» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

RISO AMARGO [1]


O sorriso de Florbela
Lisboa, Campo Grande, 17.03.1918


Num desafio temerário e forte,
Eu quero rir da vida, altivamente,
Da vida que é combate, luta ingente,
Nesta comédia dum viver sem norte.

Quero rir da desgraça e da má-sorte
Que nos fere e persegue tenazmente.
Rir do que é baixo e vil, amargamente,
Do que é soluço e dor… E até da morte!

De tudo rir! Que mais posso fazer?...
Se a podridão de charco jamais volta
À limpidez das fontes a correr…

Quero rir!... E o meu riso é um esgar,
Um grito de impotência e de revolta!
Rir! Quero rir!!
                    … E apenas sei chorar!

Florbela Espanca








[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

«Exilada» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

EXILADA [1]



Paisagem alentejana, reprodução de tela.
Imagem divulgada por Eduardo Luís Godinho, no Facebook.


Quem pôs dentro de mim esta ânsia ardente
De quanto é belo e puro e luminoso
— se eu tinha de viver, humanamente,
Prisioneira d'um mundo tormentoso?

Quem me formou um coração fremente,
Torturado, exigente, cobiçoso
D’Altura, d’Infinito – se, impotente,
Queria limitar meu voo ansioso?

Ah! Não sou deste mundo! O meu país
Não é este, onde o sonho contradiz
A realidade! Eu sou uma exilada,

Que um duro engano fez nascer aqui!
Tirem-me da prisão onde caí!
Arranquem-me as algemas de forçada!

Florbela Espanca








[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Fonte escrita do poema: Recordar Florbela Espanca – Comunidade no Facebook.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

«Velhinha e moça» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

VELHINHA E MOÇA [1]

Vila Viçosa, coberta de flocos de neve.
Fotografia divulgada por Eduardo Luís Godinho, no Facebook.

O tempo, mansamente, há de espalhar
Flocos de neve sobre os meus cabelos,
Numa carícia deixará os selos,
No meu corpo gentil, o seu sabor…

Ao meu sangue fremente, a palpitar,
Hão de esfriá-lo sucessivos gelos,
E aos meus seios graciosos hei de vê-los
Mirrados como lírios a fechar…

Mas mesmo quando for assim velhinha
O teu amor fará um alvoroço
Na minh’alma e graça de menina

E até morrer, o meu olhar cansado,
Fitando o teu há de julgar-se moço,
Num enlevo de eterno enamorado.

Florbela Espanca







[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Fonte escrita do poema: Recordar Florbela Espanca – Comunidade no Facebook.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

"Perdidamente" [«Ser Poeta»] - pela Tuna Universitária do Porto


Publicado no Youtube, 20.05.2013


Atuação no XX FITU, no Coliseu do Porto.

Letra: «Ser poeta», de Florbela Espanca

Música: João Gil e Luís Represas


Tuna Universitária do Porto
Grupo musical acústico português cuja data de fundação remonta ao final do século XIX. É um dos grupos do Orfeão Universitário do Porto e integra estudantes de toda a Universidade do Porto. Site Oficial