23/12/2013

Desejos natalícios, da poetisa Florbela Espanca




Na fotografia familiar: [Flor]Bela; o pai, João Maria Espanca; Mariana do Carmo Toscano, a primeira madrasta de Bela; e o irmão, Apeles Espanca.


Poema escrito num postal a Júlia Alves, datado de Évora – 24.12.1916, em resposta ao envio de um ramo de violetas pela sua amiga e correspondente, em Lisboa, do suplemento “Modas e Bordados” do jornal O Século.


In: GUEDES, Rui (recolha, leitura e notas) – Poesia: 1903-1917 / Florbela Espanca, de “Obras Completas de Florbela Espanca”, vol. 1, Lisboa: Dom Quixote, 1985, p. 269.

19/12/2013

ESTE LIVRO...


Túmulo da poetisa
Fotogr. de Gabi, in Flickr
















Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...

FLORBELA ESPANCA


Livro de mágoas (1919) [1.º soneto]



Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 56.

16/12/2013

Autobiografia – páginas do Diário de Bela

 «[...] o meu ser misterioso, intangível, secreto»


[1]
          «Para mim? Para ti? Para ninguém. Quero atirar para aqui, negligentemente, sem pretensões de estilo, sem análises filosóficas, o que os ouvidos dos outros não recolhem: reflexões, impressões, ideias, maneiras de ver, de sentir – todo o meu espírito paradoxal, talvez frívolo, talvez profundo.
          Foram-se, há muito, os vinte anos, a época das análises, das complicadas dissecações interiores. Compreendi por fim que nada compreendi, que mesmo nada poderia ter compreendido de mim. Restam-me os outros... talvez por eles possa chegar às infinitas possibilidades do meu ser misterioso, intangível, secreto.
          Nas horas que se desagregam, que desfio entre os meus dedos parados, sou a que sabe sempre que horas são, que dia é, o que faz hoje, amanhã, depois. Não sinto deslizar o tempo através de mim, sou eu que deslizo através dele e sinto-me passar com a consciência nítida dos minutos que passam e dos que se vão seguir. Como compreender a amargura desta amargura? Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas? Deus malicioso e frívolo que tão lindos mantos teces sobre os ombros das mulheres que vivem? Para mim és um fantoche, ora amável ora rabugento, de que eu conheço todos os fios, de quem eu sei de cor todas as contorções. «Attendre sans espérer» poderia ser a minha divisa, a divisa do meu tédio que ainda se dá ao prazer de fazer frases.
          Não tenho nenhum intuito especial ao escrever estas linhas, não viso nenhum objetivo, não tenho em vista nenhum fim. Quando morrer, é possível que alguém, ao ler estes descosidos monólogos, leia o que sente sem o saber dizer, que essa coisa tão rara neste mundo – uma alma – se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou o que julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me

Página de abertura do Diário, datada de 11.01.1930, pp. 233-234.

 [2]
          «Viver não é parar: é continuamente renascer. As cinzas não aquecem; as águas estagnadas cheiram mal. Bela! Bela! não vale recordar o passado! O que tu foste, só tu o sabes: uma corajosa rapariga, sempre sincera para consigo mesma.
          E consola-te, que esse pouco já é alguma coisa. Lembra-te que detestas os truques e os prestidigitadores. Não há na tua vida um só ato covarde, pois não? Então que mais queres, num mundo em que toda a gente o é... mais ou menos? Honesta sem preconceitos, amorosa sem luxúria, casta sem formalidades, reta sem princípios e sempre viva, exaltantemente viva, miraculosamente viva, a palpitar de seiva quente como as flores selvagens da tua bárbara charneca!»
Página do Diário, datada de 12.01.1930, p. 234.

 [3]
          «Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa... mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive. Procurar o sentido da vida, sem mesmo saber se algum sentido tem, é tarefa de poetas e de neurasténicos. Só uma visão de conjunto pode aproximar-se da verdade. Examinar em detalhe é criar novos detalhes. Por debaixo da cor está o desenho firme, e só se encontra o que se não procura. Porque me não esqueço eu de viver… para viver?» – Diário do último ano, p. 241

Página do Diário, datada de 20.04.1930, p. 241.



_____ Referência: _____
Cartas e diário /Florbela Espanca, org., introd. e notas de Rui Guedes, Venda Nova, Bertrand, 1995 – Col. “Autores de língua portuguesa”, pp. 233, 234, 241.

15/12/2013

«Vozes do mar» de Florbela é letra de fado, na Semana Florbela Espanca

Publicado por Vagner Cardoso, no Youtube, 10.12.2013
«Vozes do mar», poema de Florbela adaptado como letra de fado

na Semana Florbela Espanca, na Casa de Portugal em São Paulo

Exclusivamente na noite de 10 dez. [terça-feira], houve a participação especial
do violonista Sérgio Borges e da fadista Ciça Marinho, cantando
um poema de Florbela Espanca transformado em fado.



VOZES DO MAR


Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delíquio d’oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d’epopeias? Tens anseios
D’amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?!

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

FLORBELA ESPANCA


[Soneto escrito a 17.06.1916]




Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume II, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2010, p. 75.

14/12/2013

«Riso amargo» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

RISO AMARGO [1]


O sorriso de Florbela
Lisboa, Campo Grande, 17.03.1918


Num desafio temerário e forte,
Eu quero rir da vida, altivamente,
Da vida que é combate, luta ingente,
Nesta comédia dum viver sem norte.

Quero rir da desgraça e da má-sorte
Que nos fere e persegue tenazmente.
Rir do que é baixo e vil, amargamente,
Do que é soluço e dor… E até da morte!

De tudo rir! Que mais posso fazer?...
Se a podridão de charco jamais volta
À limpidez das fontes a correr…

Quero rir!... E o meu riso é um esgar,
Um grito de impotência e de revolta!
Rir! Quero rir!!
                    … E apenas sei chorar!

Florbela Espanca








[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

«Exilada» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

EXILADA [1]



Paisagem alentejana, reprodução de tela.
Imagem divulgada por Eduardo Luís Godinho, no Facebook.


Quem pôs dentro de mim esta ânsia ardente
De quanto é belo e puro e luminoso
— se eu tinha de viver, humanamente,
Prisioneira d'um mundo tormentoso?

Quem me formou um coração fremente,
Torturado, exigente, cobiçoso
D’Altura, d’Infinito – se, impotente,
Queria limitar meu voo ansioso?

Ah! Não sou deste mundo! O meu país
Não é este, onde o sonho contradiz
A realidade! Eu sou uma exilada,

Que um duro engano fez nascer aqui!
Tirem-me da prisão onde caí!
Arranquem-me as algemas de forçada!

Florbela Espanca








[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Fonte escrita do poema: Recordar Florbela Espanca – Comunidade no Facebook.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

«Velhinha e moça» - soneto inédito revelado a 06.12.2013

VELHINHA E MOÇA [1]

Vila Viçosa, coberta de flocos de neve.
Fotografia divulgada por Eduardo Luís Godinho, no Facebook.

O tempo, mansamente, há de espalhar
Flocos de neve sobre os meus cabelos,
Numa carícia deixará os selos,
No meu corpo gentil, o seu sabor…

Ao meu sangue fremente, a palpitar,
Hão de esfriá-lo sucessivos gelos,
E aos meus seios graciosos hei de vê-los
Mirrados como lírios a fechar…

Mas mesmo quando for assim velhinha
O teu amor fará um alvoroço
Na minh’alma e graça de menina

E até morrer, o meu olhar cansado,
Fitando o teu há de julgar-se moço,
Num enlevo de eterno enamorado.

Florbela Espanca







[1] Um de seis sonetos inéditos – e até hoje desconhecidos – de Florbela, divulgado na conferência-recital “Os Poemas Inéditos de Florbela Espanca”, org. Associação Nova Acrópole, Lisboa, 06.12.2013. – conferência proferida por José Carlos Fernández; poemas declamados pelo Grupo de Poesia Florbela Espanca da Nova Acrópole.

Fonte escrita do poema: Recordar Florbela Espanca – Comunidade no Facebook.

Reprod. in GONÇALVES, Severina (2013), Poemas Inéditos de Florbela Espanca, Lisboa: Edições Nova Acrópole. [ainda não vi édito este livro]

"Perdidamente" [«Ser Poeta»] - pela Tuna Universitária do Porto


Publicado no Youtube, 20.05.2013


Atuação no XX FITU, no Coliseu do Porto.

Letra: «Ser poeta», de Florbela Espanca

Música: João Gil e Luís Represas


Tuna Universitária do Porto
Grupo musical acústico português cuja data de fundação remonta ao final do século XIX. É um dos grupos do Orfeão Universitário do Porto e integra estudantes de toda a Universidade do Porto. Site Oficial

13/12/2013

Carta ao irmão Apeles [Lisboa, 5.09.1922] lida por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca



Carta de florbela, datada de Lisboa, 5.09.1922,
 enviada ao Apeles, quando este estava no Brasil.

Vídeo integrante da programação da Semana Florbela Espanca, realizada de 8 a 14 de dez. de 2013, diariamente às 19 horas, na Casa de Portugal, São Paulo / Brasil.
Leitura: Lorenna Mesquita
Direção: Fabio Brandi Torres
Direção de fotografia: Claudio Castro
Apoio cultural: Casa de Portugal
Realização: Srta.Lô Produções


Fonte do vídeo e texto informativo (adaptado): "Florbela Espanca" no Youtube

CARTA


Lisboa, 5-9-1922


Meu querido irmão

Tenho esperado notícias tuas, mas decididamente vejo a inutilidade da esperança, e por isso resolvo-me a conversar um bocadinho contigo, já que há tanto tempo te não dignas escrever-me. Respondi para o Rio a um postal que me enviaste de Vitória, primeiro e último testemunho de que ainda te lembras dos bananas que por aqui vegetam sem festas, sem regozijos, sem apoteoses. Lisboa neurasteniza, e estou contente que a tua alma vibrante e entusiástica de vinte anos se eleve ao contacto de todas as belas coisas que vês; isto por cá deve parecer-te, à volta, um túmulo grotesco onde se agitam larvas. Enfim, já que na vida é sempre preciso voltar, que seja ainda daqui a muito tempo; já vês que sou muito pouco egoísta, pois a minha razão deseja o contrário que o meu coração poderia desejar. Sei que te lembrarás, às vezes, duma irmã amiga que está ansiosa por te ouvir contar muitas coisas inverosímeis à força de ser belas. O teu riso, a tua força de viver, dar-me-iam uma grande felicidade, acredita. Que extraordinário ente tu és! Artista vibrante e sensível, compreendendo tudo, achando em tudo vida e emoção, tu com tudo isto realizas o milagre magnífico de teres nervos equilibrados sem coisa alguma de doentio, sem coisa alguma de mágoa. Que diferentes nós somos, não achas? Ou talvez sejamos parecidos e só me falte a mim a livre expansão de todas as forças da alma, comprimidas pelas mil engenhocas deste complicado mecanismo que é a vida. O que é certo é que eu, que esqueci há muito o riso são e verdadeiro, gosto de te ver rir e assim te vi ontem pelas 10 h. da noite. Não vás imaginar que endoideci, mas pensa muito simplesmente que vi no Cinema Condes a fita do raid Lisboa-Brasil. Não vi mais ninguém, decerto porque ninguém mais me interessava a não ser o Peles lindo. Dançavas como um entrain verdadeiramente diabólico. A pobre da pequena de vestido de rendas não chegava ao teu ombro! Que esforço para conseguir passar-te da cintura! Bonita era, na verdade, e, como sempre, tens bom gosto apesar de as escolheres sempre anatomicamente imperfeitas... Não te escames que isto não é verdade pequenina, mas gentil e bem feita, o novo flirt do Peles.

Estás sempre a rir e pareces-me ainda mais preto, mas mais magro, é verdade? Quantas coisas tu me contarás! Tu sabes que a irmã poetisa compreende todas as emoções e todas as loucuras da tua alma. A pobre Rosine tem escrito sempre, e eu tenho-lhe respondido, mas, se bem que me faça insinuações frequentes a teu respeito, evito responder-lhe por discrição, pois não sei o que quererias que ela soubesse a teu respeito e, assim, na dúvida, não lhe digo nada. Às vezes, falando indiferentemente e sem intenção, pode fazer-se tolice.

Se puderes, escreve, sim? O António envia-te um abraço e, como eu, deseja-te muitas, muitas coisas boas.

Lembranças minhas ao Castelão.

Um grande abraço muito apertado e com saudades da
Bela


A mãe Mariana está cá e também se recomenda ao Peles.

______________________
Fonte: ESPANCA, Florbela – Cartas e diário, org., introd. e notas de Rui Guedes. Lisboa: Bertrand, 1995, pp. 132-133.

Carta para o irmão Apeles, lida por Lorenna Mesquita [9 dez.], na Semana Florbela Espanca




Vídeo integrante da programação da Semana Florbela Espanca, realizada de 8 a 14 de dez. de 2013, diariamente às 19 horas, na Casa de Portugal, São Paulo / Brasil.

Leitura: Lorenna Mesquita
Direção: Fabio Brandi Torres
Direção de fotografia: Claudio Castro
Apoio cultural: Casa de Portugal
Realização: Srta.Lô Produções


Fonte do vídeo e texto informativo (adaptado): "Florbela Espanca" no Youtube

CARTA

12/12/2013

«Toledo», poema lido por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca




Carta a Guido Batelli, lida por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca


Carta a Guido Batelli, datada de Matosinhos, 22.08.1930.


«Chopin», soneto dito por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca em São Paulo





Carta a Guido Batelli [Évora, 27.07.1930], lida por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca



Publicado em 13/12/2013



Carta de Florbela Espanca a Guido Batelli, datada de Évora, 27.07.1930.

Vídeo integrante da programação da Semana Florbela Espanca, realizada de 8 a 14 de dez. de 2013, diariamente às 19 horas, na Casa de Portugal, São Paulo / Brasil.

Leitura: Lorenna Mesquita
Direção: Fabio Brandi Torres
Direção de fotografia: Claudio Castro
Apoio cultural: Casa de Portugal
Realização: Srta.Lô Produções

11/12/2013

«Os Meus Versos" poema lido por Lorenna Mesquita [10 dez.] na Semana Florbela Espanca





Carta a António Guimarães, lida por Lorenna Mesquita, na Semana Florbela Espanca




Vídeo integrante da Semana Virtual Florbela Espanca, parte da programação da Semana Florbela Espanca, realizada de 08 a 14 de dezembro de 2013, na Casa de Portugal, São Paulo.


António Guimarães: segundo marido de Florbela Espanca, sua maior paixão, com quem ficou casada oficialmente de 1921 a 1925.