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31/12/2014

A MAIOR TORTURA

Monte alentejano com urze (2007) 
por Salvação Barreto (1927-)


A um grande poeta de Portugal! 
[Américo Durão]


Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidia
Onde poise a cabeça, onde me deite!

E nem flor de lilás tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Mágoa no seu leite!

Poeta, eu sou um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!

Mas a minha tortura ‘inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para gritar num verso a minha Dor!...


FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)



Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 68.

PEQUENINA




À Maria Helena Falcão Risques


És pequenina e ris... A boca breve
É um pequeno idílio cor-de-rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!

Doce quimera que a nossa alma deve
Ao Céu que assim te faz tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!

O ver o teu olhar faz bem à gente...
E cheira e sabe, a nossa boca, a flores
Quando o teu nome diz, suavemente...

Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dores
Que fizeram de mim isto que sou!


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)




Referência:


PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 67.

NEURASTENIA

Imagem do filme "Florbela" (2012) de Vicente Alves do Ó

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim, Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...

O vento desgrenhado, chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...

Chuva... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...


FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)




Referência:


PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 66.

AS MINHAS ILUSÕES

Imagem do filme "Florbela" (2012) de Vicente Alves do Ó


Hora sagrada dum entardecer
D’Outono, à beira-mar, cor de safira.
Soa no ar uma invisível lira...
O sol é um doente a enlanguescer...

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna d’oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna d’oiro,
No Mar da Vida, assim... uma por uma...


FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)



Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 65.

30/12/2014

DIZERES ÍNTIMOS



É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de roxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!

E logo vou olhar (com que ansiedade!...)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bebés doentes
Que hão-de morrer em plena mocidade!

E ser-se novo é ter-se o Paraíso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!

E os meus vinte e três anos... (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: — “Que linda a vida!...”
Responde a minha Dor: — “Que linda a cova!



FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)



Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 64.

A MINHA DOR

Convento das Chagas de Vila Viçosa

A você

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres d’agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)



Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 63.

TORRE DE NÉVOA

Torre de Anto, em Coimbra

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: — “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!...


FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)



Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 62.

LÁGRIMAS OCULTAS

Ofélia, noiva de Hamlet

Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas.
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!


FLORBELA ESPANCA
Livro de mágoas (1919)



Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 61.

TORTURA


Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!


FLORBELA ESPANCA

Livro de mágoas (1919)




Referência:

PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 60.

09/12/2014

REALIDADE, por Florbela Espanca

Homenagem à Poetisa na celebração do seu 120.º aniversário
Vila Viçosa, 8.12.2014
Fotografia por Radio Borba


Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho…
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho.

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada…
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho…

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei… se te perdi...


Florbela Espanca
in Charneca em flor, 1931


Referêencia:
In: ESPANCA, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 145.

11/04/2014

ORAÇÃO, soneto de Florbela Espanca


Nossa Senhora da Conceição Vila Viçosa
Rainha do Céu e Rainha de Portugal

Ó Deus, senhor da terra, omnipotente,
Senhor do vasto mar! Senhor do céu!
Atentei esta prece humilde e crente,
Ouvi-me por piedade, Senhor meu!

Olhai por todos que amam sua terra,
Guiai aqueles que amam Portugal
Protegei os que andam pela guerra
A defender o seu torrão natal!

Lançai o vosso olhar de piedade
Por todos os que arrastam ‘ma saudade
Pela pátria distante, muito além!…

Consolai, ó meu Deus, os orfãozinhos,
As mães, as noivas e os que têm ninhos
Despedaçados pela guerra. Amém.



Este soneto de Florbela foi escrito a 19.06.1916.


Também ela, a Poetisa do Amor, voou em pensamentos e alma até à proteção de Nossa Senhora de Vila Viçosa, a Imaculada Conceição. 

27/03/2014

E Florbela é "cisne e lírio e águia e catedral" no livro de poemas que é a tua vida



Sainte Chapelle, Paris

O MEU MAL

A meu irmão

Eu tenho lido em mim, sei-me de cor,
Eu sei o nome ao meu estranho mal:
Eu sei que fui a renda dum vitral,
Que fui cipreste e caravela e dor!

Fui tudo que no mundo há de maior;
Fui cisne e lírio e águia e catedral!
E fui, talvez, um verso de Nerval,
Ou um cínico riso de Chamfort...

Fui a heráldica flor de agrestes cardos,
Deram as minhas mãos aroma aos nardos...
Deu cor ao eloendro a minha boca...

Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha!
E foi de lá que eu trouxe esta ânsia estranha!
Mágoa não sei de quê! Saudade louca!

Florbela Espanca
in Livro de Sóror Saudade (1923)



Fonte:
In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 106.

21/03/2014

PRIMAVERA, um soneto de Florbela anunciando a estação do Amor


"O nascer da Primavera" - pormenor de Flora
por Sandro Botticelli


É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!...

Florbela Espanca
("Reliquiae", parte anexa por Guido Battelli, à
 2.ª edição de Charneca em Flor (1931)





Referência:
In: ESPANCA, Florbela - Obra Poética, volume II, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2010, p. 172.

Alma perdida, soneto de Florbela, dos mais divulgados nos manuais escolares



Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!...


Florbela Espanca, 
in Livro de Mágoas, 1919



Referêencia:

In: ESPANCA, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 76

08/03/2014

CASTELÃ DA TRISTEZA, soneto de Florbela Espanca

Livro de Horas para o uso de Amiens. Picardia, séc. XV

Altiva e couraçada de desdém,
Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!
Passa por ele a luz de todo o amor...
E nunca em meu castelo entrou alguém!

Castelã da Tristeza, vês?... A quem?...
– E o meu olhar é interrogador –
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguém vem...

Castelã da Tristeza, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de horas,
À sombra rendilhada dos vitrais?...

À noite, debruçada, p’las ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonhos afagam tuas mãos reais?...

Florbela Espanca




Referêencia:

In: ESPANCA, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 59.

O «EU» de Florbela

Imagem in: Hoje na Historia - JBlog - Jornal do Brasil

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo p’ra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca


Referêencia:

In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 58.

"Vaidade" de Florbela ou «a Poetisa eleita" pelos leitores

Florbela, em Évora - 1916.

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... 

                                          E não sou nada!...

Florbela Espanca





Referêencia:
In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 57.

21/01/2014

Luisa Notarangelo celebra Florbela Espanca em “Terra de Portugal”

Luisa Notarangelo
Imagem do perfil, no Facebook


Luisa Notarangelo, a residir em Itália, é vocalista de LUSITANA SAUDADE ENSEMBLE e canta um reportório musical de “world music” que inclui letras com textos de poetas portugueses, desde os mais consagrados e amados – como Fernando Pessoa e Florbela Espanca, até a populares (de tom alentejano) e de intervenção (Zeca Afonso).






          No CD agora lançado TERRA DE PORTUGAL [2014] – ideia, voz e produção executiva de Luisa Notarangelo – Florbela Espanca é verdadeiramente homenageada: são três as letras adaptadas de poemas da autora de Charneca em flor [1931]:
          «Fado Menor» [«Poetas»];
          «Fado Florbela» [soneto «Anoitecer»] e
           «Fado para Amália» [«Meu fado, meu doce amigo»].
Transcrevemos, à frente, os textos florbelianos. Um desses poemas interpretados por Luisa Notarangelo está disponível no Youtbe – Oiça este fado, e aproveite para expressar um "gosto" [like]:



FADO FLORBELA [clique aqui]
Letra: Florbela Espanca/Luisa Notarangelo
Música e arranjos: José Barros e José Elmiro Nunes
Vídeo no Youtube – fotografia de Patrizia Secundo.



ANOITECER*

A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos d'amor p’ra toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora…

Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Meu áspero e intérmino Calvário!

E a esta hora tudo em mim revive;
Saudades de saudades que não tenho... 

Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
Florbela



* Soneto integrado no volume Livro de Soror Saudade [1923). -in: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 112.



«Fado Menor» de Luisa Notarangelo


POETAS*

Ai as almas dos poetas

Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,

Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito

Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras

Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!
                                  Florbela

* Poema publicado no Notícias de Évora, 23.07.1916. - in: ESPANCA, Florbela – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, 27.

«Fado para Amália» de Luisa Notarangelo


MEU FADO, MEU DOCE AMIGO

Meu fado, meu doce amigo
Meu grande consolador
Eu quero ouvir-te rezar,
Orações à minha dor!

Só no silêncio da noite
Vibrando perturbador,
Quantas almas não consolas
Nessa toada d'amor!

Cantando p'r uma voz pura
Eu quero ouvir-te também
P'r uma voz que me recorde
A doce voz do meu bem!

Pela calada da noite,
Quando o luar é dolente,
Eu quero ouvir essa voz
Docemente... docemente...

                                   Florbela



* In: ESPANCA, Florbela – Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 58.



Para saber mais:


16/01/2014

«PRINCE CHARMANT», soneto de Florbela Espanca

Ilustr. de Infante do Carmo para um conto d'O livro das mil e uma noites
6 vols., Lisboa: Estúdios Cor, 1958-1962.



A Raul Proença

No lânguido esmaecer das amorosas
Tardes que morrem voluptuosamente
Procurei-O no meio de toda a gente.
Procurei-O em horas silenciosas!

Ó noites da minh'alma tenebrosas!
Bocas sangrando beijos, flor que sente...
Olhos postos num sonho, humildemente...
Mãos cheias de violetas e de rosas...

E nunca O encontrei!... Prince Charmant
Como audaz cavaleiro em velhas lendas
Virá, talvez, nas névoas da manhã!

Em toda a nossa vida anda a quimera
Tecendo em frágeis dedos frágeis rendas...
— Nunca se encontra Aquele que se espera!...

Florbela Espanca



Referêencia:
Título original, nos manuscritos: «Nunca», escrito em Vila Viçosa, e integrado no volume Livro de Soror Saudade (1923).


In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 111.

10/01/2014

«És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!», soneto de Florbela



És tu! És tu! Sempre vieste, enfim!
Oiço de novo o riso dos teus passos!
És tu que eu vejo a estender-me os braços
Que Deus criou pra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim…
Foram-se os desalentos, os cansaços...
O mundo não é mundo: é um jardim!
Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me toda, Amor, prende-me bem!
Que vês tu em redor? Não há ninguém!
A terra? — Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente,
Tudo o que é vida e vibra eternamente
É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

Florbela Espanca




Referência:
Soneto "IV" da parte "He hum não querer mais que bem querer" de Charneca em flor (1931).

In: ESPANC, Florbela - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca" - org. e notas de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 192.