Mostrar mensagens com a etiqueta Sonetos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sonetos. Mostrar todas as mensagens

08/01/2014

A terra de Florbela



POBRE DE CRISTO


A. J. Emídio Amaro


Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar,
Onde tenho o meu pão e a minha casa.

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu,
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada!

Truz... truz... truz... — Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite,
Terra, quero dormir, dá-me pousada!...

Florbela Espanca




Soneto inicialmente intitulado «Minha terra» e publicado no periódico D. Nuno, nº 125, 19.05.1929, Vila Viçosa, p. 2. - Integrado no volume Charneca em flor (1931).

19/12/2013

ESTE LIVRO...


Túmulo da poetisa
Fotogr. de Gabi, in Flickr
















Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo.

Este livro é para vós. Abençoados
Os que o sentirem, sem ser bom nem belo!
Bíblia de tristes... Ó Desventurados,
Que a vossa imensa dor se acalme ao vê-lo!

Livro de Mágoas... Dores... Ansiedades!
Livro de Sombras... Névoas e Saudades!
Vai pelo mundo... (Trouxe-o no meu seio...)

Irmãos na Dor, os olhos rasos de água,
Chorai comigo a minha imensa mágoa,
Lendo o meu livro só de mágoas cheio!...

FLORBELA ESPANCA


Livro de mágoas (1919) [1.º soneto]



Referência:
PEREIRA, José Carlos Seabra (org. e notas) - Obra Poética, volume I, de "Obras de Florbela Espanca". Lisboa: Editorial Presença, 2009, p. 56.